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Um arquipélago é um conjunto de ilhas. Que podem parecer separadas e isoladas umas das outras, mas quando você olha bem, elas são inevitavelmente conectadas. 

Ilha pode ser um lugar bem ensolarado mas também uma sala bem escura. Então aqui, ilha é ilha de montagem. Não é montagem de carro, embora a gente monte carro pra caramba aqui. 

Vamos juntar ilhas que parecem separadas por ai, pra entender como é que elas funcionam. Pra entender quem são os capitães e as capitãs dessas ilhas. Pra deixar as ilhas falarem do mesmo jeito que elas comunicam emoções pra você. 

Isto é o Arquipélago. E você é muito bem vindo.

O que nunca dizer ou fazer à um montador

Feb 21, 2019

 

 

Seguinte: a ilha de montagem é sagrada. Não que montadores sejam santos, mas o lugar é solene. Pensa bem, é escurinho, é confortável, tem um quê de confessionário (certamente por isso  ficamos sabendo de tantas intimidades dos diretores). Então, como em lugares austeros, há um certo código de conduta à ser respeitado e seguido. Nem todos falamos sobre isso, mas é muito importante que se entenda o que é a ilha e quem é o montador.

Vamos começar de fora pra dentro. Antes de entrar, bata na porta. Sempre. Em todos os lugares. Pode não parecer, mas os montadores são artistas… alguns levemente autistas… e você de fato pode estar interrompendo uma linha de pensamento. As vezes retomar uma simples operação demora mais do que terminá-la da primeira vez.

Pode entrar! A sala é nossa… menos o mouse. O mouse é meu. Sério. Eu, particularmente, acredito que a ilha de edição tem de ser um lugar divertido e tranquilo. Sou muito criteriosa quanto à isso. Eu faço certa questão de que, diretores/finalizadores/assistentes/amigos, se sintam à vontade na minha ilha. É um lugar que vai transformar um monte de material bruto em alguma emoção ou história, e o montador é quem se ocupa de estruturar isso tudo. Então, nunca pegue no mouse, sem pedir. O mouse é a extensão do cérebro do montador e as vezes do seu também! Se você pega no aparelho, é como se você estivesse colocando sua mão sobre o córtex frontal do montador. Ninguém quer ter seu cérebro apalpado. 

Beleza… vamos dar um play? Show! Por favor, nunca pergunte se “tem um take melhor”. É uma pergunta estúpida. A única resposta equivalente vem cheia de ironia… “Tem, mas acabei escolhendo o pior, pra ver o que você achava”. Pode ser que exista um take que funcione mais para alguma coisa, mas melhor, não tem. Os montadores assistiram tudo o que você filmou. Tudo. Em play. Em tempo real. Juro. Ou seja, a gente viu mais de uma vez o que vocês decidiram antes e durante o set. É esse material que faz o seu filme. A gente chama ele de rei, como o Umbertão nos ensinou. Ou seja, além de assistir, limpar e selecionar, nós assistimos, limpamos e selecionamos novamente… e isso nos dá um conhecimento que é importante pra montar o filme. 

Tem alguns episódios memoráveis nas ilhas de publicidade onde o filme tem de ter uma secundagem precisa. Quando você for fazer aquela pergunta cotidiana: “Ta com quanto tempo?” nunca duvide da resposta. Se o montador te responder que o filme está com 27:12, ele está com 27:12. Os números não são algo subjetivo. Bom, pelo menos nesse sentido. Podemos discutir a relatividade do tempo, inclusive na montagem, (escadarias de Odessa e timewarps)… dá uma discussão deliciosa. Mas o tempo do filme numa timeline é algo que não tem margem pra discussão. Ou é, ou não. É zero ou um. Não é azulado, granito, forte ou doce. A TIMEline é dependente desse paradigma e nós também.

Enfim, a ilha é um lugar onde nós montadores e você, seja lá o que você faça,  vamos passar alguns momentos torturantes, ansiosos e agonizantes. Por isso é bom aprender esse breve código de conduta. Porque é também aqui que vamos contar as suas histórias, vamos rir e aprender coisas juntos.

 

Texto Sabrina Wilkins